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domingo, 24 de janeiro de 2016

Nikki regressa

Nikki vagueava absorta pelo espaço, aos comandos da Golden Eagle (II). Tinham sido mais umas 24 horas atribuladas, nas quais tinha conseguido pôr vários assuntos em ordem. Agora só precisava de encontrar um sítio no qual pudesse colocar todos os sistemas da nave em modo de poupança de energia e apreciar a paisagem. E acontece que encontrou o local perfeito. Ali estava ele, mergulhado num profundo azul.

Space Fantasy

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

As crónicas de Zoltar

Zoltar encontrava-se a viver na Terra há já alguns anos e tinha feito uma razoável adaptação aos hábitos terráqueos, mas por vezes ainda se espantava com alguns costumes dos habitantes daquele planeta azul.

Havia, por exemplo, a questão das datas. Os aniversários. Por que razão era tão importante comemorar um acontecimento apenas na exacta altura em que a Terra voltava a estar na mesma posição na sua órbita em torno do Sol? Não dava para entender! E ainda por cima, nem sequer era a mesma posição senão de quatro em quatro anos. Uma tontice, na verdade. Havia terráqueos que resolviam deprimir de 365 dias em 365 dias (ou 366...) se acontecia o aniversário de uma coisa triste, ou então ficavam (ou fingiam que ficavam) particularmente alegres naquele dia, se acontecia o aniversário de uma coisa alegre.

O Natal, por exemplo, intrigava bastante Zoltar. Sim, ele já tinha percebido que se comemorava o aniversário - lá está - do Messias Jesus. Só não entendia bem porque razão muitos terráqueos resolviam gastar quantidades absurdas de dinheiro naquela data, a dar presentes uns aos outros. É que se ainda fosse com vontade... mas Zoltar tinha-se apercebido que era uma obrigação para muitos. E ao que parece, ficava-se muito mal visto se não se desse presentes aos outros no Natal. Na realidade, Zoltar estava-se nas tintas para que lhe oferecessem presentes no Natal. A maior parte das coisas que recebia era completamente inútil e só servia para ocupar espaço. Preferia que lhe dessem alguma coisa de que precisasse noutra qualquer altura correspondente a qualquer outra posição da Terra em torno do Sol.

Outra coisa: no ano anterior, Zoltar tinha resolvido que não iria participar naquele costume absurdo dos presentes, mas ainda assim decidira cozinhar uns deliciosos gruffits (especialidade da sua aldeia em Zelmit) para levar para a consoada em casa de uns amigos. Tinha sido imensamente difícil arranjar os ingredientes para cozinhar os gruffits, mas tinham ficado perfeitos. A cor verde era apelativa, o aspecto gelatinoso era sedutor e a geleia de marmelo com que os cobrira era la pièce de résistance. Nunca perceberia porque nem lhes tinham tocado. Decididamente, a origem de uma pessoa, neste caso, de um ser vivo, vá... e o seu percurso de vida faz com que possa ser um eterno incompreendido para os que não a partilham.

Grunf.
Zoltar voltará a atacar.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A Rosa de Unicórnio

Nikki vagueava mais uma vez pela Galáxia, procurando paz de espírito. Na sua mente repetiam-se incessantemente os mesmos pensamentos, que lhe tiravam o sono e lhe perturbavam o descanso.

Ela sabia que mais uma missão árdua se aproximava, sabia que tinha que estar preparada fisica e mentalmente, mas o facto é que o seu corpo ainda não estava recomposto desde a última missão - que tinha sido desgastante - e a sua mente, essa, andava perdida nos confins do Universo.

Olhou para o painel, verificou a sua posição presente e colocou a nave em full stop. No ponto onde estava, conseguia ter uma fantástica visão da nebulosa NGC 2237. Baixou a intensidade luminosa do habitáculo e apreciou o espectáculo.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Fantasias de Natal

Aproximei-me da porta do hotel e logo ela se abriu. O porteiro, muito aprumado, sorriu-me e cumprimentou-me enquanto eu passava. Retribuí o sorriso e perguntei onde era o bar.
- Suba ao nono piso e siga para a sua esquerda até ao fundo do corredor - apontou o elevador com a mão direita, enquanto a esquerda ainda segurava a porta.
- Obrigada - retorqui.
Dirigi-me para o elevador, cuja porta estava a ser impedida de se fechar por um jovem de cabelos compridos, que segurava com as duas mãos um caixote e colocava o pé junto à célula fotoeléctrica. Apressei o passo.
- Faça o favor - disse ele.
Sorri timidamente e passei, murmurando um agradecimento e deitando um olhar curioso para o caixote, que estava aberto. No seu interior estavam objectos de formas arredondadas, cobertos por papel de alumínio. Ele esperou que eu passasse e depois entrou também, colocando-se em frente ao painel com os botões.
- Não precisava de se apressar... - olhou para mim e abriu um sorriso luminoso - para que andar vai?
- Nono - disse eu, sorrindo abertamente também. A expressão do rapaz era calorosa. Continuou a fitar-me, bem disposto, após carregar no botão. As portas fecharam-se e o elevador iniciou a sua viagem ascendente. Olhei para o chão, tentando dar um ar casual ao meu acto, como se estivesse a observar se estava tudo bem com os meus sapatos. Não consegui aguentar muito tempo aquele fitar intenso. Passado um pouco, levantei o olhar. Continuava a observar-me, agora com um ar inquisidor. Observei melhor as suas feições. Tinha uma face angular, um cabelo comprido e brilhante, preso num rabo de cavalo e uns olhos castanhos e grandes. Senti que não tardava a dirigir-me a palavra.
- Vai para a festa?
- Sim, na verdade já estou um pouco atrasada... também vai? - Atrevi-me.
Agora o seu sorriso era ainda mais rasgado.
- Oh, vou apenas entregar uma encomenda.
Foi nessa altura que o elevador parou e as luzes se apagaram. Do exterior e ao longe ouviram-se exclamações de surpresa. Acendeu-se uma ténue luz de emergência dentro do elevador.
- Falha na electricidade. Tem acontecido muito aqui ultimamente, - explicou o rapaz - acho melhor sentar-se, isto ainda vai demorar. Acho que estamos entre dois andares.
- Bolas! - disse eu.
Ele sentou-se e eu resolvi imitá-lo. Cada um encostado à sua parede, olhávamos agora para a cara um do outro, como se tentássemos decorar as respectivas feições. Ele tinha pousado o caixote no chão do elevador.
- Que traz no caixote? - perguntei, sem medo da possível indiscrição.
- Limas, - levantou o papel prateado - para as caipirinhas. - Voltou a sorrir.
Os cantos dos meus lábios viraram-se para cima, num movimento involuntário. Estava divertida com aquilo tudo. Fechada no elevador, com um completo estranho, que no entanto parecia já conhecer há muito tempo.

Passaram uns minutos e a electricidade continuava sem voltar. Pelo menos aquela electricidade que fazia os elevadores andarem e as luzes acenderem. Dentro do elevador parecia haver faíscas. O silêncio não era de todo desconfortável e a estadia entre dois andares também não. Pelo menos naquela companhia.

Ainda hoje não sei o nome do rapaz de cabelos compridos que transportava um caixote cheio de limas para a festa no nono andar. Apenas me lembro do seu sorriso luminoso, do calor dos seus lábios e do seu beijo doce e intenso. Quando a luz voltou e o elevador retomou a sua marcha, olhámo-nos mais uma vez durante algum tempo. As portas abriram-se e eu saí, dirigindo-me para a festa sem olhar para trás.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

ExCertos

Foi naquele dia que se apercebeu de que algo tinha mudado. Uma sensação de contentamento invadiu-o quando deu conta de que já não se sentia adormecido, de que estava novamente desperto. Esboçou um sorriso que parecia vir do nada, sem razão aparente. Então era assim que funcionava? De um momento para o outro, num segundo, talvez numa fracção de segundo? Uma imagem! Uma imagem bem iluminada foi quanto bastou, afinal!

domingo, 20 de abril de 2008

A história dos macacos e dos barretes vermelhos

Um conto popular com moral nas entrelinhas

Havia um homem que negociava em barretes encarnados. Uma vez, em África, sentiu tanto calor que resolveu descansar à sombra de uma árvore, colocando um dos barretes na cabeça. Pousou ao seu lado a mala onde transportava os barretes e adormeceu. Horas depois, quando acordou, ergueu-se e preparava-se para continuar a caminhada quando, ao pegar na mala, a sentiu demasiado leve. Qual não foi o seu espanto quando ao abri-la, a viu completamente vazia! Muito triste e preocupado sentou-se a pensar quem teria sido o ladrão. Olhou em volta e não viu ninguém. Onde é que o ladrão se escondera? Foi então que, erguendo os olhos para a árvore sob a qual tinha adormecido, a viu repleta de macacos que faziam momices com os barretes na cabeça. O pobre homem julgou a sua mercadoria perdida para sempre. E, muito desesperado, atirou para o chão o seu barrete. Então os macacos imitaram-no, atirando também para o chão os barretes que cada um tinha na cabeça. Assim, o negociante teve oportunidade de recuperar todos os barretes, fechá-los na mala e continuar, feliz, o seu caminho…

quinta-feira, 27 de março de 2008

Capítulo 3: A reunião

Tudo se passou então muito rapidamente, sem que Nikki tivesse sequer tempo de protestar. Enquanto a sua nave atracou à de Rabbit, já se aproximava a cruiseship dos Jalapeños. Nikki dirigiu-se à porta de ligação, ainda a destilar fúria, mas sem saber muito bem como parar Rabbit sem ter que usar actos violentos. Talvez ele tivesse razão, o que a fazia perder-se nos seus esquemas era mesmo aquilo que ele apelidava de "delicadeza". Era por causa daquela "delicadeza" que estava neste momento junto à porta de ligação mirando Rabbit, que ostentava um ar de felicidade, com uma caixa de cartas numa mão e outra de fichas debaixo do braço.

Os Jalapeños também chegaram rapidamente. Tinham a faculdade de se teletransportar, mas essa era a única coisa que Nikki lhes invejava, pois para compensar essa portentosa capacidade, apresentavam um odor único em toda a Galáxia, odor esse que não podia ser classificado na gama do agradável. De um momento para o outro, três Jalapeños apareceram na zona de living da sua nave, sem se poder dizer que tivessem sido propriamente convidados. Com esgares sorridentes, aproximaram-se de Nikki e de Rabbit, fazendo vénias e emitindo ruídos de satisfação.

Nada a fazer - pensou - agora é jogar o jogo. E é que era mesmo.

sábado, 22 de março de 2008

Capítulo 2: Os turistas Jalapeños

Nikki colocou a sua nave em rota de intercepção com a de Rabbit e pôs os sentidos em alerta, preparando-se já para nova perseguição, mas em vez disso recebeu no intercom um sinal de aviso. Era Rabbit que tentava estabelecer comunicação. Já nada a espantava. Era preciso ter lata. Rabbit apareceu no monitor, com aqueles olhos grandes a fixá-la e um ar inocente:
- Olá Nikki, como vais?
- Como vou?! Queres mesmo saber isso? Prepara-te para a abordagem, Rabbit. Vou buscar os meus Créditos agora.
- Eh... lamento, Nikki. Não os tenho. Na realidade preciso da tua ajuda.
- Da minha ajuda?? Ainda esperas ajuda, Rabbit? Não cessas de me espantar. Não conheces limites!
- Nikki, espera! Podes recuperar os teus Créditos! Só preciso de mais um jogo, só mais um jogo. O Bear encontrou-me e não está muito contente, posso dizê-lo. Ameaçou fazer da minha nave sucata, e de mim sumo de cenoura se não lhe pagasse o que lhe devia! Conheces o Bear, sabes que ele não tem a tua delicadeza, Nikki, ele não é propriamente um diplomata. Tenho até amanhã para lhe pagar...
- Rabbit... espero que estejas preparado para a minha delicadeza, pois estou neste momento a sentir-me inundada dela... Não faço da tua nave sucata, pois ela vale mais inteira. Vais pagar-me o que me deves e aprender a não ser batoteiro. Prepara-te, vou atracar.
- Espera, não desligues! Tu tens que me ajudar, ouve bem: eu não tenho Créditos suficientes para te pagar e tu sabes que preciso da minha nave. Como posso trabalhar sem ela?
Nikki abriu a boca para falar, mas estava sem palavras. Então Rabbit achava que andar de Galáxia em Galáxia em torneios de Mad-Poker era trabalho. Fechou a boca. Rabbit continuou:
- Tenho um pequeno jogo organizado, somos poucos. Resolvi compensar-te. Estás inscrita. Apanhei uns turistas Jalapeños, uns verdadeiros achados! A transbordar de Créditos para gastar. Podes recuperar facilmente o que perdeste, Nikki, e se não fores tu, sou eu. Ficas sempre a ganhar, repara. Se não ganhares, ganho eu, e nesse caso ganhas tu também.
Havia qualquer coisa naquela lógica que lhe estava a escapar.
- És um vigarista, Rabbit. E se ganhar eu, quem paga o que deves ao Bear?
- Huuummm... conto com a tua boa vontade. Repara: o que está em jogo é muito mais do que possas imaginar. Digamos que aqueles Jalapeños não sabem o que hão-de fazer ao dinheiro. Só querem passar um bom bocado, os coitados. Querem divertir-se por estas bandas, não sabem como. Na realidade, estamos a fazer-lhes um favor...
- Ha! Não contes comigo. Desenrasca-te.
- Mas Nikki... espera! Está tudo combinado! Já lhes disse que tínhamos jogadora. Elogiei a tua beleza e intrepidez. Não conhecem terráqueas. Estão ansiosos! Além de que o jogo é na tua nave e tudo.
- Hein?! Na MINHA nave?! O jogo é na MINHA nave?! Combinaste trazer uns Jalapeños fedorentos para aqui????
Nikki estava a sentir-se novamente com vontade de o perseguir, mas desta vez por cinquenta cinturas de asteróides seguidas.

terça-feira, 18 de março de 2008

Capítulo 1: Rabbit

Nikki olhava fixamente o painel da nave. Ao terminar a manutenção não-programada da sua Golden Eagle (II) tinha apreciado com gosto o aspecto robusto e veloz da menina-dos-seus-olhos. O vermelho-sangue metalizado reluzia resplandecente e já não havia sinais das mossas resultantes daquela impulsiva passagem pelo meio da cintura de asteróides. Por dentro parecia estar tudo igualmente afinado. Já não se ouvia aquele irritante trec-trec-trec vindo da zona do reactor e parecia que a nave já não ameaçava perdas de energia a todo o momento. Malditos asteróides! Também ninguém a tinha mandado perseguir aquele crápula do Rabbit a todo o custo, mas o certo é que ele lhe tinha deixado os nervos em franja. Como se atrevia ele a enganar toda a gente?! A fazer batota ao Mad-Poker daquela maneira, escondendo os ases na manga?! E não bastando isso, ao ser apanhado com a boca na botija, ainda se atrevera a dizer que era inocente! E depois, esguio e ágil como era, fugira a toda a brasa, com os bolsos cheios de Créditos Nimeanos! O que é certo é que se safara, mas só por esta vez... sim, Nikki ainda não tinha desistido. Orbitava agora Nimea, com o olhar desfocado mas sentidos apurados, todo o painel da nave em estado de alerta. Uma coisa era certa: Rabbit teria que voltar a Nimea, pois só ali aquelas chapas tinham algum valor. E quando voltasse... zás! A ela não lhe escaparia: teria que devolver, uma por uma, todas as chapinhas que lhe pertenciam. Sim, porque a manutenção também não se podia dizer que tivesse sido barata. Aliás, pensando melhor, Rabbit pagaria a manutenção também... Ha! Um sorriso sarcástico colou-se aos lábios de Nikki, enquanto pensava nas suas mãos nuas apertadas à volta do pescoço peludo de Rabbit... Estava nestes pensamentos quando um bip se fez ouvir no painel de comandos. Não queria acreditar! Era o trace de Rabbit que aparecia no monitor! Aproximava-se de Nimea, sem qualquer escudo protector, sem qualquer sinal de tentar esconder a sua visibilidade, o incauto!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Rumo a Iota Draconis B

Após mais uma extenuante missão, nada melhor de que o merecido descanso. Nikki recostou-se na cadeira de piloto e ficou por momentos a pensar no seu próximo rumo. Terra? Não. Não para já, pelo menos. Embora lhe apetecesse retornar a casa, precisava de uma pausa. É certo que se voltasse, teria ao seu alcance aquele acordar que tanto gostava, com o barulho das ondas a rolar suavemente na areia da praia. Sim, a sua cabana na praia estaria à sua espera... mas estariam também os amigos e família, todos de volta dela para querer saber as novidades da última missão. Da última vez nem tivera tempo de se recompôr. Após a sua chegada, a festa durara toda a noite e de manhã já só conseguira manter os olhos abertos à custa de muito esforço. Não... desta vez voltaria mais recomposta. O seu corpo e a sua mente precisavam mesmo de descanso, apenas umas horas mais.

Endireitou-se na cadeira, marcou o rumo pretendido no painel de comandos e ligou a hyperdrive. Em momentos estaria a anos-luz dali, a orbitar Iota Draconis B. Aquele grande planeta azul sempre a maravilhara. E afinal de contas, não era todos os dias que se podia avistar de tão perto uma gigante vermelha.

domingo, 20 de janeiro de 2008

X Marks The Spot (5)

Robert agachou-se junto à tábua e observou atentamente. Via-se que a tábua tinha sido deslocada. Tirou o porta chaves do bolso e com a ajuda de uma chave conseguiu levantar uma ponta da tábua e depois deslocá-la para o lado. Apontou a lanterna para o buraco aberto no soalho e viu uma caixa azul a luzir naquele esconderijo.

Um misto de contentamento, culpa e preocupação invadiu Robert, enquanto retirava a caixa debaixo do soalho. E se aparecia alguém? E se ali se encontrasse algo comprometedor? A curiosidade era no entanto mais forte do que tudo o resto e portanto Robert resolveu sentar-se e, tentando manter a calma, abriu a caixa:
Um ramo de flores secas, uma vela meia ardida, dois bonecos de plasticina já ressequidos, uma caixa de CD onde se lia "Bob"... A sua expressão mudou gradualmente de intrigada, para inquieta e incrédula. As suas mãos começaram a tremer quando abriu a caixa do CD e leu a dedicatória no interior. A caligrafia era meticulosamente cuidada:

"Querida Nicole: Para que te recordes dos momentos que passámos.
Sempre teu,
Robert"


Deixou cair a caixa e pegou nos objectos um por um: as memórias percorreram-lhe o cérebro como imagens subitamente iluminadas por flashes. A caminho da casa de Nicole a apanhar flores silvestres à beira da estrada. O rosto de felicidade de Nicole a moldar os cómicos bonecos do seu futuro bolo de noiva, num molde que era tudo menos o tradicional. Aquela noite que tinham passado a conversar até ao amanhecer, iluminados à luz da vela...

A emoção foi demasiada, mais do que conseguia suportar. Tinha sido aliás esse o seu problema. Era felicidade a mais. Queria de volta a sua vida calma e pacata, queria tudo controlado, não queria que nada de imprevisível o surpreendesse! Como era possível que tudo isto tivesse voltado até si? Porque não tinha ficado quieto em casa?

Apressada e atabalhoadamente, colocou tudo na caixa, fechou-a e guardou-a novamente debaixo do soalho, colocando a tábua por cima. Desceu escadas abaixo e saiu dali já sem evidenciar qualquer preocupação de ser visto. Correu para casa e enfiou-se no quarto, com a cabeça a mil.

Epílogo

Nicole pensara que pudesse ter vontade de recuperar aquela caixa um dia. Talvez por isso se tivesse dado ao trabalho de marcar a tábua do soalho da velha casa. Descobrira entretanto um sentimento libertador, e já há muito tempo que não se sentia tão feliz.

Robert desvendara o mistério da velha casa, mas ainda lhe faltava desvendar um mistério ainda maior. O mistério no qual trabalhava agora poder-se-ia mesmo chamar o mistério da sua vida.

sábado, 19 de janeiro de 2008

X Marks The Spot (4)

Após os acontecimentos daquela noite, Robert passara o dia seguinte a colocar na sua cabeça vários cenários de explicação para o seu novo mistério. Robert adorava mistérios. Desde encontros secretos na casa abandonada, passando por histórias envolvendo drogas, assaltos e vários outros crimes, tudo lhe atravessara a mente. Tudo menos envolver-se no assunto, pois Robert gostava de observar tudo de longe, nunca se envolvendo nas coisas. Isso era para os outros.

Outro dia passou e o assunto não lhe saía da cabeça. Muitas vezes se chegava à janela quando estava em casa e ouvia qualquer barulho, mas nada. Nada de acção na casa abandonada.

Foi no terceiro dia que tudo aconteceu. Ao sair de casa ao fim da tarde para ir aos correios buscar uma encomenda, olhou fixamente para a porta da velha casa. Seria tão fácil... seria tão fácil entrar e explorá-la... à noite... quando ninguém o visse...
Seguiu o seu caminho para os correios sempre com a ideia, tlim, tlim, tlim, a retinir na sua cabeça.
Passou o dia e chegou a noite e Robert estava em pé a olhar pela janela para a porta da velha casa lá em baixo. Num impulso pegou na lanterna e saiu de casa.
Chegado à rua olhou em volta várias vezes, certificando-se de que não havia ninguém nas redondezas. Avançou silenciosamente, atravessando a rua e encostando-se imediatamente à parede da casa, como via fazerem nos filmes. Deslizou encostado à parede, de lanterna em punho, até chegar ao pé da porta. Aí ainda lhe passou pela cabeça abrir a porta ao pontapé, qual agente do FBI, mas conteve o pensamento e mudou-o para um registo mais discreto. Deu umas pancadas na porta, olhando receosamente em volta, até que esta cedeu e se abriu. Imediatamente se esgueirou lá para dentro, fechando a porta atrás de si.
A casa cheirava a pó e a mofo e estava bastante escuro lá dentro, pois as janelas estavam fechadas com tábuas, não deixando passar nenhuma luminosidade. Robert acendeu a lanterna e girou o feixe a toda a volta. Ao iluminar as escadas que conduziam ao primeiro andar, viu pegadas marcadas no pó, por ali acima. Susteve a respiração e sentiu o seu coração a bater tanto que quase o sufocava. Subiu pé ante pé, escadas acima, seguiu as pegadas marcadas no chão e entrou num quarto ao fundo do corredor. Era o quarto que tinha vista para o seu próprio quarto, do outro lado da rua. Olhou para o soalho flutuante de madeira, iluminando-o tábua a tábua com a lanterna.

Ali estava. Numa tábua junto a uma das paredes, uma cruz a giz azul sobressaía na madeira clara. X marks the spot.

sábado, 12 de janeiro de 2008

X Marks The Spot (3)


Nicole sempre tinha tido uma grande dificuldade em separar-se das coisas. No seu quarto existia uma colecção sem fim de objectos, objectos esses que tinham sempre uma memória associada. Havia a sua primeira boneca, as velas mordidas que tinham ardido no bolo do seu décimo oitavo aniversário, os bilhetes daquela ida ao jardim zoológico, o bocado de tecido que se tinha rasgado do seu vestido quando fora ao parque com o seu primeiro namorado, uma miniatura do seu primeiro carro... e por aí fora. Nos últimos anos, aquela mania de guardar objectos-memória tinha tomado uma nova dimensão. Nicole guardava uma pilha de caixas no armário, cada uma com objectos ligados a uma determinada pessoa ou a uma determinada situação. Quando estava em dia de nostalgia, abria o armário e começava a explorar as caixas, trazendo à memória todas as situações pelas quais tinha passado e revivendo sentimentos.

Ora acontece que havia uma caixa que ultimamente a perturbava bastante: a caixa do Bob. Bob fora o seu último grande amor, que saíra da sua vida sem qualquer explicação lógica aparente. Não tinha saído para comprar cigarros e desaparecido, não, mas a situação podia assemelhar-se a essa. Bob tinha simplesmente decidido que era altura de mudar de vida, e de um dia para o outro pôs termo a tudo, cortou amarras e partiu. Aquela caixa tinha-se tornado então num conjunto de memórias extremamente dolorosas. Só de olhar para ela, conseguia ver o seu conteúdo, como se tivesse visão de raios-X, e todas as memórias ficavam a pairar na sua cabeça.

Naquele dia à noite, Nicole decidiu que tinha que se livrar da caixa. Bem pensado, bem feito, Nicole abriu o armário, pegou na caixa de cartão azul, vestiu o fato de treino e saiu porta fora.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

X Marks The Spot (2)

Estava Robert naqueles pensamentos quando viu uma luz deambulando pelo andar de cima da velha casa. A luz oscilava e movimentava-se. Robert encolheu-se por trás dos cortinados como se tivesse receio de ser subitamente iluminado também. Depois saiu dali e começou a andar às voltas pelo quarto, sem saber bem o que fazer. Cedo se revelou que dar voltas num quarto às escuras era uma actividade perigosa, principalmente num quarto como o dele, cheio de material espalhado por todos os lados. Robert deu inadvertidamente um pontapé numa pilha de revistas de filatelia que tinha ao lado da secretária, revistas essas que se espalharam pelo chão e foram por sua vez fazer tombar o tripé com a máquina fotográfica. Ahhh!! Robert soltou um grito em voz alta e tacteou à procura do candeeiro. Bolas! Acendeu a luz, subitamente esquecido do que se passava na casa da frente e começou por apanhar a máquina fotográfica, que felizmente ainda estava agarrada ao tripé. Ufa! Que alívio... só um pequeno arranhãozito...

O segundo estrondo da noite, ou melhor, o terceiro, depois da queda da máquina, fez-se ouvir lá em baixo na rua.

Robert apagou a luz outra vez e correu para a janela, repetindo o ritual dos cortinados. Desta vez viu um vulto, uma figura esguia, seguramente feminina, que se afastava pela rua abaixo. Chegada perto da zona da rua já iluminada, Robert viu a rapariga puxar um capuz para a cabeça e começar a correr, em passo de jogging.

X Marks The Spot (1)


Era já madrugada quando finalmente Robert DePina conseguiu adormecer. O dia anterior tinha sido muito cansativo e a noite, essa, tinha sido longa. Finalmente conseguira por termo ao mistério, mas os acontecimentos recentes haviam surtido nele um efeito de excitação que se podia equiparar à toma de vários cafés seguidos. E logo nele, que tinha aversão à cafeína e a tudo o que significava sair da sua segura e pacata rotina.

Tudo havia começado dias atrás, quando Robert estava pachorrentamente de volta da sua colecção de selos, a observar com a lupa os detalhes de um selo que tinha a imagem de um beija-flor. Foi nesta altura que um estrondo na rua o acordou da espécie de transe em que sempre ficava quando organizava a sua colecção.
Caramba, quem faria aquela barulheira na rua, àquelas horas da noite?! Robert levantou-se, apagou o candeeiro e aproximou-se da janela, afastando discretamente as cortinas para que pudesse espreitar sem ser visto.

Na escuridão da noite e com dois candeeiros de rua recentemente avariados, pouco se conseguia distinguir naquela zona, mas como a lua estava quase cheia, Robert conseguiu perceber a porta entreaberta da velha casa abandonada que ficava mesmo em frente da sua. O estrondo vinha concerteza dali. Afinal aquela porta estava trancada há muito e tinha um aspecto bastante sólido. Arrombá-la não devia ser fácil. Um frémito nervoso percorreu o corpo de Robert. Que se passaria? Quem seria que entrava naquela casa, abandonada há tanto, ainda por cima àquela hora?

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Regresso a Hellas Basin


Nikki caminhava no deserto, dando graças por ter o seu fato ainda em bom estado após o acidente com o Rover. Nem queria imaginar o que aconteceria se o fato se danificasse. Naquele momento o seu cansaço era tal, que já nem sentia as pernas. Simplesmente se arrastava, espalhando poeira vermelha a cada passo. Aquela paisagem árida que ao princípio a encantara, agora parecia persegui-la por todos os lados. Nem uma nesga de vida à sua volta. Atrás de si, para além de rochas vermelhas e pó, só um trilho de pegadas arrastadas que já ia longo. Olhou para trás por momentos e já ia prosseguir caminho quando ao longe distinguiu uma nuvem densa e alaranjada. Ajustou a viseira para conseguir uma melhor filtragem da luz solar. Uma tempestade, não. Não agora que já estava a chegar a Hellas. Não agora, com a maior parte dos sensores avariados, com a água a chegar ao fim e sem abrigo à vista. Juntou todas as suas forças e correu. Correu o mais que pôde, desenfreadamente, o vento forte já a fazer-se sentir. Tinha que chegar ao seu destino o quanto antes. Se aquela tempestade a envolvesse, nunca mais conseguiria sair dali. A última tinha durado cerca de um mês. Nikki corria, arfava e embaciava a viseira enquanto respirava, o que fazia com que não visse muito bem o caminho à sua frente. Ao longe mas cada vez mais perto, estava o seu abrigo. Cada vez mais perto, mais perto...

O cansaço foi demasiado. Nikki caiu. Quando abriu os olhos só via pó à sua volta e o vento era já muito forte. Olhou em frente e ainda conseguiu distinguir os contornos da sua nave. Um último esforço e partiria. Arrastou-se por mais uma centena de metros e accionou o comando da porta. Com o vento a fustigá-la, entrou a custo, sentou-se no lugar do piloto e ligou todos os painéis: os dados indicavam que ainda era possível sair dali. Suspirou de alívio. Estava salva. Tão cedo não a voltariam a apanhar em Marte.

domingo, 8 de abril de 2007

Diálogo

O dia estava quase a terminar quando Jules bateu à porta. Do outro lado só o silêncio respondeu. Tentou novamente. Ouviu então um barulho suave de passos. Pés descalços na madeira, é certo. Uma pausa. A luz acendeu-se lá fora e os ferrolhos rolaram na porta. André abriu e deitou-lhe um olhar incrédulo: "Que fazes aqui, Jules?" Não respondeu. Olhou lá para dentro, como que a convidar-se a si própria para entrar. André abriu mais a porta e afastou-se, enquanto Jules passava por ele sem nada dizer. Ouviu a porta fechar-se atrás dela. Caminhou até à sala e sentou-se. Levantou os olhos e ficou a olhar em volta. André entrou na sala, impávido. Sentou-se também. Durante meia hora assim ficaram. Incapazes. O diálogo nunca tinha sido o seu forte. Demasiadas coisas escondidas, sentimentos reprimidos, medos sabe-se lá de quê. Jules quebrou finalmente o silêncio: "Dás-me água?" André levantou-se, desapareceu por momentos e voltou com um copo cheio. Estendeu-lhe o copo, sentou-se ao seu lado e assim ficaram.

sábado, 7 de abril de 2007

Avança

- Então, que me dizes? Avanço ou não?
- Hummm... parece que tudo é favorável neste momento. Tudo se alinha.
- Mas alinha-se para quê?
- Caramba, o que me perguntaste?
- Perguntei se avançava, mas tu disseste-me que tudo se alinhava, não disseste para quê...
- Se eu disse que tudo é favorável!...
- Bom, pode ser favorável para não avançar.
- Oh, pára com isso. Tudo é favorável no que diz respeito ao que perguntaste, como é óbvio. Tudo se alinha...
- É óbvio para ti, não para mim. Tudo se alinha. Ora se tudo se alinha pode ser para que as coisas prossigam como até aqui. Numa linha ininterrupta, que segue sempre na mesma direcção.
- Pára com a matemática, bolas!
- Bom, está bem. Ok. Tudo é favorável. O alinhamento. Estou a ver. Mas achas mesmo que avance?

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Dilemas

Olho para o telemóvel e escrevo uma mensagem. Mando ou não mando? Bom, vou guardá-la como rascunho. A mensagem está gira. Releio. Nada de mal, pura inspiração. Vou aguardar um sinal. Se às 22h30 não tiver vindo um sinal, não mando. É isso, um sinal. Mas que tipo de sinal devo aguardar? É um mistério, mas quando ele vier, sabê-lo-ei. Sim, é isso, devo reconhecê-lo quando o vir. Se não o reconhecer é porque não teve que ser e apago a mensagem. Faltam 10 minutos para as 22h30. Olho para o telemóvel. Olho para a televisão. Pego numa revista e folheio-a distraidamente. Uma mosca sobrevoa a minha cabeça e zune ao pé do meu ouvido esquerdo. Pás! Raios, falhei. Hummm, seria este o sinal? Uma mosca? Quereria ela dizer qualquer coisa? Que disparate, uma mosca... O Universo teria concerteza um melhor sinal para mandar do que uma mosca a zunir. Volto a olhar para a revista e tento concentrar-me, mas logo olho para o relógio que está à minha frente. 5 minutos. Aguardo um sinal em 5 minutos. Distraidamente olho para o topo da secretária e vejo uma pilha de papéis que tinha separado para reciclar. Amachuco uma folha: se a atirar para o cesto de papéis e acertar, mando a mensagem. Vum! falhei. Ok, esta não valeu. Vai outra: Vum! Em cheio! Ok, tenho que mandar a mensagem, portanto. Bom, mas na realidade isto foi batota, porque falhei à primeira. Hummm... 1 minuto para o derradeiro sinal, aquele não valeu, foi tudo inventado. Suspiro. Toca o telefone. Agora, não posso atender, caramba, estou a aguardar um sinal! O toque continua a ecoar. Olho para o relógio. Olho para o telemóvel. Faltam uns segundos... pronto, passou o tempo. A mensagem será apagada. Corro para o telefone e levanto o auscultador. Desligaram. Quem seria?

(Um post inspirado na experiência pessoal e nos passarinhos e vampiros do Gil)